BARBIE NÃO É UM FILME FEMINISTA E EU POSSO PROVAR


Uma das coisas que eu mais gostei em Barbie: o Filme foi a jornada do Ken pelo patriarcado. É muito parecida com a jornada que algumas mulheres têm com o feminismo.


Quando chegamos à adolescência, percebemos algumas incongruências nas regras comportamentais e morais quando se trata de mulheres. Mas não sabemos explicar, pois para a maioria das pessoas não há nada de errado.

Então, um belo dia, você se depara com o feminismo e ele verbaliza tudo o que você percebia de errado, mas não encontrava validação para apoiá-la. 

O tempo passa, você aprende mais sobre feminismo, desigualdade e injustiça social. Você se dá conta de que o feminismo é tão falho quanto o patriarcado e, às vezes, tão injusto quanto o machismo. 

Você se decepciona e se sente perdida. Você não quer mais ser feminista, mas também não quer ser machista. Então você se sente como uma estrangeira. 


Assim como o filme propõe, não precisamos derrubar o sistema vigente. Podemos apenas trabalhar nas mudanças necessárias (que é uma das reivindicações positivas do feminismo). 


E assim como mostra o filme através da batalha entre os Kens, o feminismo também dividiu as mulheres, pois se trata de um movimento, inicialmente, da elite branca, que não representava as mulheres negras, as brancas pobres e outras etnias. Assim como o machismo divide os homens, pois nem todos concordam com comportamentos machistas e misóginos, o feminismo também dividiu as mulheres.


O direito à vida, ao respeito e à busca pelo bem-estar pertence a todos nós. Denunciar injustiças e defender alguém numa situação de vulnerabilidade não deveria ser considerado ativismo, e sim um comportamento natural e desejável em todo ser humano. 


Nem todas as mulheres passam por essa jornada. Algumas não se permitem enxergar as falhas do patriarcado. Outras, quando enxergam, se recusam a sair da postura de rivalidade constante. Não é fácil abandonar as crenças geradas por nós-versus-eles, pois fazer isso te coloca num caminho extremamente solitário. 


Em vez de lutarmos contra a ideia de "sexo frágil", seria mais útil levar essa ideia para todas as classes sociais e etnias. O mundo seria um lugar melhor se mulheres grávidas não tivessem que fazer faxina até a última semana de gestação. Em vez disso a mídia insiste em reforçar a cultura de guerreiras parideiras, que nada mais é do que um arquétipo moderno criado à partir da escravidão. Por isso a sociedade tem tanta dificuldade em atribuir à mulher negra características como inteligência, delicadeza e feminilidade (escolheram uma garota negra para interpretar Julieta no teatro, as pessoas estão fazendo piadas do tipo "Romeu e Romeu").


Não importa se a última voz vem de um homem ou de uma mulher, estamos todos no mesmo navio de escravos, servindo um sistema exploratório. Todos estamos sendo manipulados. E quando identificamos uma manipulação, a indústria se apressa em criar produtos para consumirmos. 


Lara Simão 

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